Parto Humanizado Hospitalar
Relato da Maíra Carvalho

Relato da Maíra Carvalho

“Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria”

(Fernando Brant / Milton Silva Campos Nascimento)

 

Se fosse preciso uma música para explicar o parto, seria essa. Só mesmo as Marias (mulheres) para terem tanta força, raça e gana, só mesmo seus corpos permitem o crescimento e nascimento de um outro ser humano. Nada mais feminino do que o parto, nada concretiza melhor a mistura de dor e alegria.

 

Maíra + Alexandre = Adélia

Segunda, 17 de fevereiro de 2020, acordei duas vezes durante a madrugada com uma cólica de leve. De manhã fiz minha caminhada, como tentava fazer todos os dias, voltei e me deitei para descansar um pouco. Quando levantei estava com dor na lombar e pensei que tivesse deitado de mau jeito. Essa dorzinha ficou o dia todo, mas no geral foi um dia comum, resolvi varrer a sala, cozinha e área (coisa que não fazia há muito tempo!). De tarde liguei para meus pais para tranquilizá-los de que estava tudo bem e sem sinal da chegada da Adélia.

Comecei a fazer a janta por volta das 18 horas, fiz arroz, feijão e carne moída com batata. O Alexandre chegou 18:30, conversamos um pouco e comecei a sentir a bebê se mexer de um jeito diferente, parecia que estava mexendo mais embaixo e me empurrando. Ele até brincou: “ela tá te cutucando pra furar a bolsa!”

Assistimos a novela e fui terminara janta. Quando estava na cozinha senti como uma cólica intestinal e percebi um “ploc”: a bolsa estourou e começou a escorrer uma água pelas minhas pernas. Chamei o Alexandre que pegou uma toalha, secou o chão e foi abastecer o carro. Era 19:45. Avisei a doula de plantão, Thaís Cabral, que quis saber a cor do líquido e se estava com contrações. Como não tinha contrações, ela me disse que era para seguir a vida, sugeriu que comesse e descansasse o máximo possível.

Fiquei deitada até o Alexandre voltar. Jantamos tranquilamente, até gravamos um vídeo para mostrar nossa cara de tranquilidade! Mas a ansiedade foi aumentando e ficando cada vez mais difícil descansar. Voltei a me deitar, tentamos assistir um filme e umas 21:30 as contrações começaram, leves e sem ritmo. Avisei a Thaís, que me sugeriu ir para o chuveiro, mas eu não quis, a dor era suportável e estava com muito calor, pensei que a água quente não seria agradável.

Por volta da meia noite as contrações ficaram mais doloridas e embora sem padrão, aconteciam de 7 em 7 minutos, as vezes de 3 em 3…Fui para o chuveiro e pedi para que a Thaís viesse para nossa casa.

Quando ela chegou eu continuava no chuveiro. Depois fizemos spinning babies com a ajuda do Alexandre e as massagens da Thaís, teve ainda bolsa de água quente e as contrações foram ficando mais doloridas…tentamos descansar novamente, mas foi por pouco tempo, a dor já estava alucinante, quando vinha a contração eu não tinha posição, tudo doía e a Thaís sugeriu que fossemos para o hospital.

O trajeto até o Sepaco foi tenso por causa das contrações, a cada uma a Thaís apertava meu quadril, o que amenizava a dor, apesar disso consegui ainda prestar atenção no caminho feito e lembro do trajeto. Chegamos por volta das 4:30, passei com o dra. Mayara que estava de plantão naquela noite e eu não quis saber de quanto era a dilatação. Tinha medo de estar com pouca dilatação e isso me abalar psicologicamente, pois a sensação era de que a dor já estava insuportável. (Depois me contaram que estava com 4 cm). Logo depois chegaram a Jéssica e a dra. Patrícia, as plantonistas do Coletivo daquela noite, que nos acompanhariam na maior parte do processo.

Fiquei algum tempo numa maca e fui para o chuveiro. A água quente alivia muito a dor, mas as contrações só aumentavam e de repente fiquei com vontade de fazer força. É uma sensação indescritível, uma força que vem de dentro, junto com uma vontade de vocalizar aquela sensação. O expulsivo foi a fase mais difícil para mim. Não doía tanto quanto antes, mas a força era tão grande que me assustou e começou a ficar angustiante fazer tanta força e ter a impressão de que nada estava acontecendo. Foi um período longo, mas não sei precisar o tempo exato. Senti muito medo! Entre as contrações tentava pedir ajuda a Nossa Senhora do Bom Parto e ao meu Anjo da Guarda. Não sei do que sentia medo, era a proximidade do momento mais esperado, e ao mesmo tempo uma enorme sensação de que eu não conseguiria. Olhava para as estrelinhas do teto e pensava: Por que não fiz cesárea?! Ou então: não quero mais! Vou desistir! Como se isso fosse possível!

O mais importante é que a todo momento a equipe me tranquilizava, dizia que tudo estava indo bem, que estava rápido e que eu iria conseguir. (Depois fiquei sabendo o quão rápido foi, em uma hora dilatei de 4 para 9 cm!! O expulsivo foi longo mesmo, mas para um primeiro parto todo o processo foi bem rápido.) Sugeriram diversas mudanças de posição, fui para a banqueta, para o vaso sanitário, fiquei de pé, de quatro apoios, deitada de lado, de pé no chuveiro (molhando o marido que servia de apoio em cada contração) e depois tentava as mesmas posições novamente…

E a equipe mudou, com o novo plantão chegaram a Sílvia, a dra. Larissa e a Débora. Nova equipe, energias renovadas para terminar o processo e concluir o expulsivo. Mudamos de posição e a cada nova contração tinha que fazer mais força, mas não consegui fazer no lugar certo, o que me fez ficar muita dor no pescoço, onde estava concentrando a força e a tensão. Pela janela eu via que o dia já tinha clareado e fiquei com medo de não terminar nunca e a sensação de que tinha se passado muito tempo. Aquela fase não acabava nunca! E o que eu mais dizia era: não consigo! Não vou conseguir! E nesses momentos que cruzava os olhos com o Alexandres, muito calmo, confiante e sorridente. E olhando nos meus olhos a Sílvia e a Debora diziam que eu ia conseguir sim e que já falta muito pouco.

Ofereceram para que eu olhasse no espelho e colocasse a mão na cabecinha da Adélia, mas eu não queria, estava com muito medo, me dava nervoso pensar em senti-la, pensei que poderia doer. Não sei explicar o que eu sentia naquele momento. Depois de insistir algumas vezes e me dizer que esse gesto seria importante, eu aceitei ver e tocar. Realmente estava muito perto, mas eu ainda não fazia força no local.

Então a dra. Larissa sugeriu que usássemos o vácuo extrator e se necessário um pouco de ocitocina. Claro que aceitei, naquela hora queria qualquer coisa para acabar logo. Mas de qual quer forma era necessário que eu aproveitasse as contrações e me concentrasse em fazer força. E lá fomos nós, vácuo usado, bebê coroado, círculo de fogo queimando, cabecinha que saia e voltava para dentro, e as contrações espaçaram. Por isso foi administrada 5 ml de ocitocina, que foram uma benção e em novas três contrações fortes e bem próximas a Adélia chegou!! Eram 9:22 da manhã.

Como estava numa posição semideitada, apoiada pela Débora a minha direita e pela Sílvia pela mão esquerda, eu pude ver o nascimento da minha bebê e não existem palavras que possam descrever esse momento…. Todo o medo, dor, ou qualquer outra coisa acabaram naquele instante como se fosse mágica.

Papai abriu a boa para chorar, mas eu estava tão agitada e ainda assustada com tudo aquilo que não chorei. Só a recebi em meus braços e conseguia dizer “minha bebezinha!” Ficamos nós três juntos, nos reconhecendo e admirados com tanta beleza e perfeição, sentimos o pulsar do cordão e esperamos o nascimento da placenta. Ela mamou e foi examinada pela pediatra enquanto estava em meus braços.

Sempre achei que placentas eram nojentas e que nunca iria querer ver uma. Porém o momento é tão mágico e a placenta é um órgão de tamanha importância para o bebê que quis ver, admirar e guardo com grande carinho o print da placenta feito pela Débora. Quando o cordão parou de pulsar ele foi cortado pelo Alexandre e fomos para o quarto iniciar essa nova aventura em nossas vidas.

No pós-parto só dor muscular devido as inúmeras posições tentadas e a força feita. Sucesso total!!

Resumo: 13 horas desde que a bolsa estourou, 5 horas de trabalho de parto no hospital, sem analgesia e períneo íntegro!!

Só posso agradecer a Deus, ao Alexandre, ao Coletivo Nascer e a Coletiva de Doulas Acolher e Cuidar, todos foram muito importantes para o sucesso doparto.

 

“E Deus viu o que havia feito, e tudo era muito bom”. (Gen.1, 31) Assim termina o relato da criação, e se nós acreditamos nisso não podemos duvidar que o ato de parir é perfeito e possível, foi o jeito escolhido por Deus para virmos ao mundo. Somos perfeitos, nosso corpo sabe tudo o que precisa fazer e só precisamos voltar a entender todo esse processo de parir e trabalhar nosso psicológico (retirando todos os mitos e histórias pejorativas e dramáticas sobre oparto normal) para nos entregarmos ao parto e ao modo “muito bom” que Deus escolheu para ajudarmos a continuar o processo da criação.

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