Parto Humanizado Hospitalar
Relato de Parto da Tâmara

Relato de Parto da Tâmara

Tudo começa na madrugada do dia 19/09 , uma quinta-feira que seria cheia de compromissos… Meu último dia oficial de atendimentos, 3 semanas antes da DPP… numa das inúmeras vezes que me levanto para ir no banheiro, com a dificuldade das dores no quadril. Ao me secar , noto um pequeno sangramento mas como não era nada demais , não dou bola… 

Mas ao voltar para a cama , como mágica , começo a sentir uma dor como uma cólica menstrual bem forte. 

E essas dores vinham constantes mas achei melhor esperar um pouco para mandar mensagem para a Lu, minha doula … Eu precisava trabalhar ! haha

Umas 5:00 mandei mensagem ela respondeu um tempo depois e as dores não tinham melhorado. Ela orientou tomar um Buscopan … tomei mas mesmo assim nada de melhorar .

E assim fomos … num determinado momento até chorei de dor . Disse que ter engravidado tinha sido uma  péssima ideia ! O engraçado é que eu não me dei conta de que estava em trabalho de parto.

Pouco antes do meio dia , fui tomar outro banho e as dores pioraram muito.E mesmo tendo lido diversos relatos que diziam que quando a gente vai pro banho e a dor não passa , são as contrações iniciando eu não me entendia como prestes a parir !

Saí e voltei ficar de quatro apoios na cama . Depois de um tempo , fui ao banheiro e vi que meu tampão tinha saído. Mandei mensagem para a Lu e ela respondeu dizendo que o Liam ia nascer mesmo ! 

Daí para frente eu lembro do meu marido tentando me alimentar ( ele foi comprar marmitex e tentou me dar na boca mas eu não conseguia me concentrar em comer ).

O tempo todo ele ficou comigo , me fez rir , me deu apoio… 

Quando eram umas 13:30 as dores começaram a aumentar bem … Já não tinha posição para ficar . Deitada era impossível, de quatro apoios ja estava cansativo , então fiquei apoiada na cama tentando me movimentar. Percebi que estava evoluindo pelo aumento da intensidade nas vocalizações…  Nesse momento já eram gritos mesmo.

Perto das 14:30 já estava implorando pela Lu , pois sentia pressão e eu tinha certeza de que se a bolsa estourasse o Liam viria logo a seguir e eu estava morrendo de medo dela não estar comigo nessa hora. Eu sabia desde antes do parto , quando decidi que teria um parto natural e que para que isso acontecesse , ter um apoio psicológico seria crucial. Esse apoio é a doula. Ela ajuda a termos confiança no processo , a sabermos que está tudo bem e também no alívio da dor com terapias alternativas com óleos ,massagem , rebozo . 

Ela demorou mais uma hora para chegar e eu já estava fora de mim… mas quando ela chegou , respirei aliviada . Me senti amparada, compreendida…lembro que ela amarrou um pano na minha barriga, me fez sentar na bola , quis que eu comesse … estava ali e só isso já me trouxe paz.

Mas nada melhorava a dor .

Mudar de posição era um suplício !!!

Uma pena que não temos nenhuma foto desses momentos porque eu não me dei conta deles ! kkkk

Depois de uma hora a Lu achou melhor a gente ir pro hospital, o tempo estava fechando e a gente corria o risco de ficar preso no trânsito. 

Andei bem devagar ate o carro. Respirar doía. Mas agora já não consigo descrever a dor … Dói mas não sei como mais .

O trajeto ate o Sepaco foi terrivel ! Cada buraco eu gritava ainda mais. E num deles a bolsa estourou parcialmente. 

Lembro de ler nos relatos que as mulheres ouvem um “ploc”. Eu tenho certeza de que foi um barulho de osso batendo ( o ombro dele na minha bacia). E as contrações vinham com muita força! 

Nesse tempo todo , a Lu me lembrava de abrir a boca , de vocalizar com o “aaaa” , de nao franzir a testa . Ela nao deixou eu me bater no carro, (eu queria dispersar a dor) … dizendo para eu deixar a dor passar por mim.

Chegamos no hospital e eu só lembro do que ouvia , pois estava de olhos fechados … vocalizando de forma tão intensa que parei o hospital.

Queriam me colocar numa cadeira de rodas mas era impossível pensar em sentar … o segurança quis insistir e a minha doula maravilhosa , deu um chega para lá nele rs …

Trouxeram uma maca e uma senhora que lembrava a minha mãe me ajudou a subir.

Fui para uma sala e tiraram minha roupa , colocaram um acesso e fizeram um toque que eu tentei negar mas fui ignorada. Isso tudo , eu sentindo as contrações cada vez mais fortes . Quiseram me colocar no cardiotoco mas era impossivel.  Houve ainda outro toque mas desse eu não lembro , a Lu que me diz que viu eu tentando negar novamente. A equipe do plantão se mostrou bem intervencionista e de um modo totalmente desnecessário , pois eu já cheguei com 9 de dilatação mas ainda havia um rebordo de colo.

A minha equipe do Coletivo Nascer , estava a caminho ( surpresas pois eu estava de 37+4 , tinha feito somente a consulta de triagem, graças à insistência da Ana Cris, pois por mim eu iria na sexta somente – um dia depois do Liam já ter nascido- mas ela insistiu para que eu fosse o quanto antes … e meio achando exagero , eu fui . Fechei o parto com elas e foi a cereja do bolo no parto lindo do meu filho.

Assim que a Lu conseguiu entrar ela ajudou a dar uma trégua nas intervenções da obstetra do plantão. Que quando foi avisada que minha equipe estava chegando , lançou um : – ah tá, mas avisa que ela está com um sangramento importante . ( vide sangramento de dilatação total do colo do útero).

Dai já fomos para a sala de parto e minhas lembranças ficam confusas novamente…

Lá a equipe do coletivo me esperava , a obstetra Fernanda , a EO Gabriela.

Lembro de que tentaram me colocar logo na banqueta mas doía demais e eu não consegui. 

Fui para a maca , ficar de quatro apoios depois de algumas contrações a bolsa terminou de romper e assim começaram os puxos.

É a sensação mais louca da vida !!!

Uma força sobre humana  que o corpo faz . E eu tive medo dessa força.

Tive medo porquê não estava entregue ao processo.

Estava tudo sendo muito diferente do que eu tinha imaginado. Não parecia um parto … pelo menos eu achava que não.

Me ofereceram bombom e eu recusei , não vi que a  sala que tinha estrelas no teto … 

Tava ali concentrada na dor .

Alguns puxos … a Obstetra Fernanda observa que uma manobra no meu quadril pode ajudar ele a descer mais , a Lu e meu marido fazem força empurrando os lados do meu quadril …

Mais alguns puxos , a Lu me incentivando a não ter medo… a descer mais o quadril quando vier o puxo…a me soltar. ( meu Deus que tarefa difícil!!!)

Aos poucos eu vou me conscientizando de que tem um bebê para passar por mim. Não tem jeito. Não tem volta … 

Não dá para pedir anestesia . Mas eu olho para a Lu e peço socorro . Ela com a maior calma do mundo , responde que está acabando, que ele já está vindo.

Só me faltava coragem.

Mais um tantinho e eu vou me entregando para as orientações da Lu …

A Obstetra vem e diz que se eu for para a banqueta ele nasce ….Mas eu não conseguia me mexer !!!

Lembro que preciso ter coragem e me entregar… tento mais um pouco… Nos intervalos dos puxos eu vou mais pra beirada da cama para conseguir descer . 

Meu marido , parceiro, melhor homem e melhor pai que meu filho poderia ter , o tempo todo ao meu lado. Ultrapassando seus próprios medos para ser meu apoio.

A Lu , pergunta se quero que ligue a playlist ou alguma música… Eu até queria mas não tinha forças para pensar nisso. 

A música dele ressoou no meu coração e fomos sem mesmo.

Quando finalmente sento na banqueta, respiro um pouco mas já vem outro puxo e eu sinto uma leve ardência … não foi o círculo de fogo. Foi bem leve mesmo . Na minha cabeça seria muito pior mas já estava cansada de reprimir aquilo tudo , penso: – Ah , dane- se se tiver que lacerar , paciência!!!  

 

Me entrego pro puxo e ele nasce !!! 

Eu sem acreditar, porque foi muito mais fácil do que imaginava ! 

Senti arder um pouco , achei que levaria mais uns dois puxos .

Fiquei meio abismada .

Pronto!

Era real ! 

Liam tinha nascido, no silêncio com todos quase em reverência ao momento dele , temperatura ambiente controlada, meia luz.

A obstetra me estende ele e eu ainda no êxtase só penso : – Mas eu não sei segurar um bebê! 

Mesmo assim , me arrisco e pego meu filho , com os bracinhos estendidos para a jornada que se iniciava naquele momento. Peguei ele como uma mãe. 

Como a mãe do Liam.

E ele não saiu do nosso lado nem um momento. Fomos para a cama. 

Mais uns minutos , ele começou a mamar , a placenta nasceu sem dificuldade. E só tenho a agradecer à equipe do Coletivo Nascer . Recomendo demais para quem puder , pois elas fazem com que a experiência do parto , o protagonismo seja todo da mulher . Elas estão ali para intervir quando necessário e só. Minha gratidão eterna !

O pai cortou o cordão depois que tinha parado de pulsar ( mesmo tendo dito que não cortaria rs)

Ele foi pesado, medido do meu lado.

Tomou vitamina K mas não a vacina da hepatite , que foi aplicada junto com a BCG na UBS. E negamos a aplicação do colírio de nitrato de prata também. Todas as requisições foram respeitadas pela equipe de plantão de pediatria do Sepaco. 

Então, voltou pro meu colo e já vai fazer 1 mês que estamos nos descobrindo nessa loucura que é maternar.

Amamentar é um desafio e graças à deusa eu tive orientação da Lu e a experiência da minha melhor amiga que me mostrou que não há nada de instintivo em amamentar . É dedicação e paciência. Isso fora os hormônios do puerpério que deixam a gente bem sensível mas estamos vivendo um dia de cada vez e muito felizes.

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