Parto Humanizado Hospitalar
Preciso Falar Sobre Violência Obstétrica – Daniela Menezes

Preciso Falar Sobre Violência Obstétrica – Daniela Menezes

Sobre cesariana, fórcipe, episiotomia, sobre agressões verbais, julgamentos, sobre a violência simbólica emaranhada em todo nosso sistema de saúde, gritando e pedindo socorro na prática obstétrica.

A sociedade patriarcal na qual vivemos transborda violência contra a mulher.

Em 1884, Engels já escrevia sobre a origem da família monogâmica, a propriedade privada como centro social e determinante do papel da mulher – procriar.

Essa mulher ocupou cada vez mais o mercado, conquistou educação, voto, cargos, salários (menores, mas ainda estamos em luta).

Junto a tudo isso, caminhou a obstetrícia. E “obstare”, “estar ao lado”, passou a se constituir em ações como “estar à frente”

Agora o médico está a frente. Ele faz o parto por você. Seu corpo, depois de tanto trabalho de escritório não dá conta. A população brasileira é miscigenada demais, os bebês não saem das ancas da mãe por não encaixarem. Não tem passagem. Ele tem um cordão no pescoço. Sua mãe teve cesariana…

Eu sou otimista, então gosto de pensar que alguns colegas realmente acreditam no que dizem. Eles acreditam por que o capital os ensinou assim e nunca pararam para refletir nos motivos de uma cesariana eletiva ser mais valorizada que um trabalho de parto espontâneo e um parto natural.

Ao fazermos um paralelo da maternidade com uma fábrica, fica mais fácil visualizar o motivo do sucesso das intervenções em obstetrícia. Enquanto um obstetra passaria cerca de doze horas prestando assistência a um trabalho de parto (generalizando), quantas cesarianas o colega conseguiria fazer no mesmo período?

Preciso ainda dizer que grande parte dos planos de saúde pagam mais por uma cesariana do que por um parto vaginal?

Tantas mulheres proibidas de parir. Tantas mulheres violentadas em seu parto. Tantas mulheres julgadas por suas escolhas. Tantas mulheres sem escolha alguma. Tantas tentarão retornar ao mercado e se depararão com o desemprego, a falta de creches, a falta de apoio.

A obstetrícia praticada país afora é um reflexo da sociedade na qual vivemos. Violência obstétrica é real, é resultado da mercantilização da saúde, do parto, da vida.

Que sociedade é essa que exige das mulheres a procriação, que parabeniza as mães uma vez ao ano com flores e chocolates e nos outros 364 dias, transborda misoginia?

Que governo é esse que brinca com a semântica, brinca com a matemática e brinca com o povo?

Este é um desabafo, sobre violência obstétrica, sobre misoginia, sobre como é ser mulher, trabalhadora, mãe e obstetra no Brasil.

 

 

Daniel Menezes, Obstetra do Coletivo Nascer.

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