Parto Humanizado Hospitalar
Relato de Parto Bee Cordeiro

Relato de Parto Bee Cordeiro

No dia que  decidimos pelo parto domiciliar compramos e alugamos equipamentos, e como era o fim de um dia quente chamei Vini pra ir na piscina do prédio. Ia só botar o biquíni. Dava pra aproveitar meia horinha de piscina. Notei um pouquinho de sangue na calcinha. Não vai rolar a piscina. Avisei a parteira Letícia da Mamatoto. A instrução era buscopan e vigiar se Ravi mexia na próxima hora. Ravi continuava dançando seu frevo, mas mais sangramento.

 

Fomos instruídos a ir pro hospital mais próximo só pra checar a vitalidade dele. Estava com algumas cólicas espaçadas, mas não tinha certeza de que eram contrações. Levamos mala de maternidade e exames só pro caso de termos que ficar. Mas nem imaginávamos que só voltaríamos pra casa com Ravi no colo.

 

Fui admitida tão  rápido que achei que o hospital estava exagerando na  gravidade do meu problema. Me botaram numa cadeira de rodas quando eu super conseguiria andar. Me passaram na frente de outras grávidas que pareciam estar bem mais agoniadas que eu. Respondi algumas perguntas pra Dra. Bárbara, plantonista do Sepaco, e ela pediu pra me examinar.  Pedi pra fazer um xixi antes, claro.

 

Fiz meu xixi e sai cantando do banheiro. Esse era meu primeiro xixi desde as 19h (eram quase 4h da manhã já) que não tinha pelo menos um sanguezinho. Mentira. Rapidinho começou a escorrer pelas pernas. Sujei a sala dela toda.  Ela fez o toque e disse q eu já estava com 4cm e que a colicazinha que eu tava sentindo eram contrações (juro q eu imaginava diferente rsrs)

 

Ela fez uns três toques seguidos e toda vez saía mais uma cachoeira de sangue. Ela chamou outra médica pra ver por que ela desconfiava que estava tocando a minha querida placenta. Digo querida porque tivemos uma relação muito especial.

 

(Pausa pra falar da placenta)

Pra começar ela era anterior, rebelde, ficava na frente quando precisava ouvir o coração do Ravi. E no início estava margeando o meu colo, o que significava a impossibilidade de um parto domiciliar e talvez até de um parto natural. Puxa, placentinha. Conversamos muito, fizemos promessas uma a outra e ela subiu! 4,5cm! Eu só precisava de 3cm 🙏 Parte ia virar cápsula e outra parte ia ser adubo pra um pezinho de jabuticaba ou pitanga. Mas bom, you know nothing, John Snow.

 

A segunda dra do plantão fez mais dois toques e afirmou com veemência de que era descolamento da placenta e que a solução era cesária de emergência. Cesária de emergência. Cesária de emergência. Essas três palavras estalavam na minha cabeça. Horas antes eu teria um parto domiciliar dos sonhos, no meio da nossa varanda, minhas plantas, nosso gato Carlos, comer minha comida, no meio das nossas bactérias! E agora, cesária de emergência.

 

Dra. Bárbara (do plantão) fez a pergunta chave da noite. “Vocês tem equipe?” Eu ainda me rebatendo com as três palavrinhas cesária-de-emergência, respondi “Simmmmmm! Amor! Liga pra Ana Cris!”

 

Na porta da sala da Dra Bárbara já tinha uma maca me esperando. Subi e mandaram tirar a roupa que ainda estava vestindo. Fui entregando tudo pro Vinicius enquanto ele falava com a Ana Cris. Ele tava tão em choque quanto eu. Estudamos juntos a gestação inteira sobre os benefícios de um parto natural. E sem dúvida alguma, essa era nossa escolha.

Mas tudo acontece por um motivo, né? E por alguma razão, a sala de cirurgia precisava de alguns minutos pra poder me receber. Uma enfermeira ligou o cardiotoco em mim e o coraçãozinho do Ravi estava ótimo! Cesária pra que, então?

 

Vini, depois de falar com Ana Cris, me diz que Dra Larissa chegaria em 16 minutos. Dentro desses 16 minutos, pelo menos 3 enfermeiras vieram me perguntar se eu queria mesmo esperar minha equipe, por que eu era caso de cesária-de-emergência. Por fim, perguntei “mas o batimento do Ravi está bom. Porque temos que correr?” E realmente nem contração direito eu tinha! Me responderam “mas o batimento pode cair de repente” Aff…se e se cair aí é cesária de emergência né.

 

A sala de cirurgia ficou pronta e nada da doutora Larissa ainda. Me levaram.

Não deixaram Vini entrar.

 

Um homem com sotaque espanhol (anestesista do plantão) começou a me explicar sobre a peridural enquanto me colocava o acesso na mão esquerda. Várias pessoas entravam e saiam da sala.

Tudo pronto. Era isso. Entrega, Confia, Aceita e Agradeça.

 

Várias pessoas entravam e saiam mais ou menos silenciosas. Até que a porta se abriu com um “Oi oi oi Bianca!” Nunca tinha ouvido essa voz na vida! E se dirigindo aos plantonistas “Eu sou a Dra Larissa, médica dela e…..” Não vou lembrar as palavras dela agora , mas maravilhosamente e elegantemente,  ela botou TODO MUNDO pra fora. Acho que ficamos eu, ela, Vini e uma enfermeira.

 

Ela grudou do meu lado e ficou vigiando o cardiotoco, na minha percepção, por muito tempo. Eu pensava “pelo menos ela que vai fazer minha cesária” Vai respeitar meu plano de parto ( que estava no papel de rascunho ainda rsrs…)

 

Até que ela disse que Ravi estava ótimo e que se eu queria um parto normal a gente ainda poderia tentar. Ela chamaria o restante da equipe e continuaria monitorando o Ravi. Poderia ser um descolamento de placenta sim, mas eu tinha poucos sinais disso. E de toda forma, estávamos na sala de cirurgia. Se precisasse, virava cesárea.

 

Se essa noite não tivesse sido tão intensa, eu diria que essa foi a melhor notícia que poderíamos ouvir. Mas claro, ainda eram 4 e pouco da manhã e o final dessa noite incluía Ravi no meu colo.

 

Aos pouquinhos foram chegando Anne (pediatra), Bruna (doula) Jessica (parteira), Dani (obstetra), Rafael (anestesista).

 

Minhas contrações estavam muito tranquilas. Ficamos batendo papo sobre a vida, o universo e tudo mais.

O tempo foi passando e eu comecei a ficar sem lugar. A bola não servia. A maca não servia. Andar não servia. Massagem não servia. Dra Larissa sempre checando minha dilatação e os batimentos do Ravi. 7cm. Ravi bem. Mas ainda muito sangue.

 

Abraça Vini, abraça Bruna. Queria tomar banho. Não era opção. Me disseram que não havia sala de delivery disponível. Mas acho que também era a chance de virar cirurgia.

 

Jessica me pediu pra ficar encostada na parede enquanto ela levantava minha barriga a cada contração. Era pra ajudar Ravi a se encaixar. Doía. Já gostei mais dela em outros dias rsrs…

 

As dores foram aumentando e eu já não tava mais afim de conversar. Bruna segura minha mão, faz massagem, me dá óleo essencial de laranja pra cheirar. Fico deitada na maca um tempinho. Jessica me pede pra ir pra banqueta aplicar o óleo de prímula.  Ainda 7cm de dilatação. E muito sangue.

 

Volto pra maca. Mais dor. Não sei quanto tempo passa. Durmo entre uma contração e outra. A Dra. Larissa sugere estourar  a bolsa. “Vai doer?” “Nada”. Realmente não doeu. Ainda 7cm. Começo a pensar em analgesia. Começo a pedir analgesia. Começo  a pedir muito (pelo menos na minha cabeça). Me ignoraram rsrs…

 

Dra Daniela diz que por  estarmos na sala de cirurgia tínhamos uma ferramenta que não teríamos no delivery. Um gás hilariante. Eu tava topando qualquer coisa pra diminuir a dor. Rafael, o anestesista do Coletivo, me ofereceu uma máscara. Respirei algumas vezes. Não sei se funcionou rsrs…

 

Olhei no relógio. Eram 8h e pouco. Dra Larissa agora sugere a ocitocina. Precisávamos acelerar por causa da perda de sangue. Eu não queria. Eu não conseguia pensar que Ravi chegaria mais  rápido. Eu pensava era que ia doer mais. E eu tava tão cansada da dor! Me convenceram de que iriam começar com bem pouquinho.

 

As contrações ficaram menos espaçadas. A dor mais intensa. Não lembrava de nada que eu tinha estudado. Posições, exercícios, mantras, orações. Nada. Dra. Larissa me pede pra ir pra banqueta. Não sabia como fui parar lá. Agora sei q Vini me carregou. Partolândia total. Vini se senta num banquinho atrás de mim e fica me sustentando. Sem ele eu cairia. Dra Larissa sentada no chão na minha frente me encorajando e todo mundo em volta.

 

Em algum momento Gabi (parteira ) surge na troca de plantão. Só percebi nessa  hora rsrs…

 

Muita dor. Não sou mais eu há  muito tempo aí. Dra Larissa diz que falta pouco. Que Ravi já está no canal. Eu não acreditava. Mais contração. Mais dor. Me pede pra fazer força. Eu estava muito fraca. Ela diz q já dava pra sentir o cabelinho dele! Eu não acreditava nem tinha coragem de tocar. Ela insiste e Vini decide tocar. Ele diz que era verdade e insiste comigo também. Coloco a mão finalmente. Ai deu um pânico.

 

Não vai dar. Não vai passar! Para tudo que eu quero descer. A Dra. diz que vou sentir o círculo de fogo. Eu grito muito. E queima. Passa a cabecinha do Ravi. Antes que eu piscasse vem outra contração. Mais um empurro e escuto um splash e ele chorar!  

 

Acabou! Era o que eu pensava. Eu morta. Não tenho força. Vini estende os braços atrás de mim e Dra Larissa entrega o Ravi pra ele. Ele coloca Ravi no meu peito. Agora eu volto a realidade. Ou quase. Ravi nasceu! São 9h06 da manhã. Eu tenho um filho! Meu filho nasceu! Eu pari!

 

Mais uma vez Vini me carrega pra maca. Agora com Ravi no colo. Ainda bem que meu marido é grande rsrs…

 

Falta a placenta querida. Mais algumas contrações e ela vem. Precisa ficar no hospital pra análise. Depois ouço que não precisa. Mas ela acaba ficando. Realmente havia se descolado 60%. Bruna faz um carimbo pra gente e fica de lembrança.

 

Ravi fez a transição da respiração assim que nasceu. Nasceu forte e saudável. Apgar 10/10. Poucos minutos já estava mamando.

 

Que coisa maluca! Que experiência sem palavras. Eu me senti a mulher mais forte do mundo sem força nenhuma. Tudo que eu decidi foi durante a gestação. Ter o melhor marido do mundo (obrigada meu amor), a equipe mais fantástica desse planeta (eu vim pra SP pra conhecer vocês) foram as decisões que eu tomei. Me cerquei dos melhores. Depois disso eu ‘só pari’. Entreguei, confiei, aceitei e agora agradeço. 💛

Este post tem um comentário

  1. Bee maravilhosa, vc é uma mulher iluminada!
    Que sorte a minha de ter a oportunidade de servir vc no nascimento do Ravi ❤ que assim como a mãe sabia muito bem como iria nascer e o quanto estava bem amparado para seguir com os planos!
    Desejo tudo de melhor pra família linda de vcs e muito mais amor pra transbordar pq é isso que vcs fazem.

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